Saúde

Câncer detectado pela cera de ouvido

Descoberta, feita por pesquisador da Universidade Federal de Goiás, promete revolucionar o tratamento da doença no Brasil e no mundo. Material diagnostica também o diabetes

De uma hora para outra, o professor Nelson Roberto Antoniosi Filho ficou famoso. Só ontem, recebeu dezenas de pedidos de entrevistas vindos de veículos de comunicação de todo o país. E não é para menos. Ele coordena a pesquisa da Universidade Federal de Goiás (UFG) que fez uma descoberta e tanto: o uso da cera de ouvido no diagnóstico do câncer. Inédita, a pesquisa promete revolucionar o tratamento da doença no Brasil e, quiçá, no mundo.

“Publicamos o estudo em janeiro. Trata-se de uma pesquisa inédita no mundo e capaz de revelar o diagnóstico para todos os tipos de câncer com precisão, no prazo de 5 horas. Além de não ser invasivo, o exame é muito mais barato em comparação a um diagnóstico de imagem, por exemplo. Nossa expectativa é de que custe cerca de R$ 400 em laboratórios particulares. Outro mérito é a possibilidade do diagnóstico precoce, uma arma e tanto no combate ao câncer, já que, quanto mais cedo a doença é descoberta, maiores são as chances de cura”, destaca.

De acordo com o estudo, realizado no Laboratório de Métodos de Extração e Separação (Lames), ligado ao Instituto de Química (IQ) da UFG, basta um exame clínico da cera de ouvido para detectar os vários tipos de câncer: carcinoma, leucemia ou linfoma.

O processo todo permite que, em cinco horas, seja verificado se o paciente tem ou não câncer. A análise pode ser feita em até sete dias, a partir da data da coleta. “É bastante vantajoso, pois, além de não ser invasivo, praticamente todas as universidades brasileiras têm a tecnologia adequada e a instrumentação necessária para fazer esse tipo de análise”, pontua o professor.

Por enquanto, não é possível identificar o órgão ou órgãos afetados pela doença. Mas chegar lá é possível, segundo o professor. Vale ressaltar que a pesquisa com a cera de ouvido elaborada pelo grupo também já é capaz de diagnosticar diabetes, e a expectativa aponta para mais descobertas relacionadas a doenças como Alzheimer, autismo e depressão, entre outras.

“Do ponto de vista químico, a cera é um concentrado de tudo aquilo que nossas células produzem, uma impressão digital do metabolismo. Na análise, conseguimos identificar substâncias produzidas por células cancerosas em menor ou maior concentração”, explica o professor. Ou seja, se o indivíduo está doente, a composição da cera será diferente à produzida por um indivíduo saudável.

Ele afirma que uma pequena quantidade de amostra de cera já contém elevada concentração de substâncias de interesse. “A análise do cerume consegue identificar 158 substâncias metabólicas. Dessas, 27 discriminam a ocorrência de câncer”.

Elaborado por João Marcos Gonçalves Barbosa e coordenado por Antoniosi, a pesquisa envolveu 102 voluntários. Os detalhes do estudo estão no artigo científico “Cerumenogram: a new frontier in câncer diagnosis in humans, publicado no Scientific Reports Nature, veículo de comunicação dos mesmos editores da revista Nature, e teve impacto na comunidade científica mundial.

“Em um país que gastou de R$ 3 5 bilhões a R$ 50 bilhões no ano passado com o câncer, segundo estimativas da ONU, a pesquisa é relevante para a sociedade em geral, pois pode reduzir custos financeiros e sociais, salvando milhares de vidas.” O professor lembra que, só no ano passado, cerca de 225 mil pessoas morreram de câncer no país.

PRÓXIMOS PASSOS

Antoniosi lembra que a pesquisa é de domínio público (não é patenteada). “À medida que tenha sido publicado, o estudo está acessível para qualquer entidade. Nossa ideia é retornar para a sociedade o pagamento de impostos em ciência, tecnologia e inovação, além, é claro, de salvar vidas. No entanto, um próximo passo para que o exame se torne realidade nos hospitais e laboratórios do país é a continuidade do financiamento para a pesquisa.”

Ele afirma, ainda, que o exame da cera pode ser mais preciso para o diagnóstico em geral, em comparação com aqueles que já existem. “O exame de sangue, por exemplo, é usado para diagnosticar alguns tipos de câncer. Caso do PSA, por exemplo, como sinalizador do câncer de próstata. Já para outros tipos, há técnicas como a mamografia e outros exames de imagem. Daí a importância do exame da cera, que traz 100% de confiabilidade no diagnóstico e é mais acessível”, compara.

O professor afirma que, em breve, a pesquisa tende a ser refinada. O porém, diz ele, é o agravamento da crise nas universidades públicas com o contingenciamento de recursos impostos pelo governo federal. “Já estamos sem recursos para pagar os serviços básicos para o funcionamento da universidade, como água e luz. Nossos alunos estão perdendo as bolsas e corremos o risco de não dar continuidade às pesquisas.”

REPERCUSSÃO

Os resultados chamam a atenção da comunidade científica para a continuidade dos estudos. Em Goiás, o Hospital Araújo Jorge deverá firmar parceria com a UFG para a ampliação dos estudos. Em São Paulo, por solicitação do médico Luiz Juliano Neto, o hospital A.C.Camargo, referência internacional no tratamento e na pesquisa do câncer, também deseja firmar parceria em pesquisa com a UFG. Uma das maiores autoridades mundiais em câncer de cabeça e pescoço, o oncologista Luiz Paulo Kowalski, também do A.C.Camargo, demonstrou grande interesse em contribuir com as pesquisas, por meio da coleta de material e validação dos resultados em pacientes já diagnosticados.

ENTENDA COMO O EXAME FUNCIONA

O exame é feito a partir da coleta da cera de ouvido no laboratório, com uma cureta. A amostra fica armazenada em um recipiente, que a isola do meio exterior, e é mantida a menos 20 graus até fazer que a análise seja feita. Na sequência, o produto é colocado em um frasco, que é selado e depositado em um compartimento aquecido.

O aquecimento faz com que os compostos voláteis da cera de ouvido passem para uma fase de vapor, a qual é recolhida depois por uma seringa e introduzida dentro ado equipamento (cromatógrafo a gás), no qual as substâncias são separadas e chegam a um outro aparelho (espectrômetro de massas), que revela quais são as substâncias presentes no material. É possível obter um perfil das substâncias presentes em indivíduos que têm câncer e em indivíduos que são sadios.

“Observamos que esses perfis são diferentes e, com base nessas diferenças, conseguimos montar um banco de dados e dizer se uma pessoa está ou não com câncer, inclusive, quando se encontra em estágio inicial”, revela o coordenador.

Fonte: Estado de Minas

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